SÉRIE: TENTAÇÃO DO MÚSICO

Reunimos uma série de formação para seu ministéiro de música, e o próximo assunto a ser abordado será: A tentação do músico. Alguns personagens bíblicos serão utilizados para identificarmos algumas das principais tentações dos nossos tempos e como vencê-las. 

Conteúdo extraído do livro: "Formação espiritual de evangelizadores na música" de Roberto A. Tannus e Neusa A. de O.Tannus).
Herodes – A Tentação da Vaidade
Série Formação: "Tentação do Músico"

Em Atos dos Apóstolos 12,20-23, encontramos o rei Herodes vestido de trajes reais e pronto para fazer um discurso ao povo que governava. O povo aplaudia e elogiava o rei, que se sentia cada vez mais cheio de si. O auge da vaidade aconteceu quando o povo o elevou com este comentário: “É a voz de um Deus e não e um homem!”

A afirmação do povo foi demais para ele; ele estava todo inchado de vaidade. Foi aí que a mão de Deus agiu pesadamente sobre ele: “No mesmo instante o anjo do Senhor o feriu por ele não haver dado glória a Deus. E roído de vermes expirou” (Atos 23). A causa de sua morte foi exatamente esta: a de não haver dado glória a Deus.

O rei Herodes estava se sentindo no lugar do Deus verdadeiro e era o povo mesmo quem afirmava isso, alimentando, assim, o ego do desafortunado rei. A mesma coisa acontece também com o músico quando, diante do povo para o qual ele executa sua música, quando não visa dar glória a Deus: acaba roído de vermes. A vaidade cheira mal dentro de nós. Quando se ministra a música sem buscar o louvor a Deus, começa-se a morrer por dentro e perde-se a unção do Espírito.

Quando começamos a receber elogios por nosso serviço prestado a Deus, os elogios até são bem intencionados, porém, esses elogios podem funcionar em nós causando um efeito devastador se nos deixamos levar pelo orgulho e pela vaidade. Se o elogio me faz “inchar”, então logo os vermes começarão a agir dentro de mim.

Devemos ser como aquele burrinho que conduziu Jesus na Sua entrada triunfal em Jerusalém (Lc 19,29-40). Ele estava amarrado. Aos discípulos havia sido dada a ordem de pegarem o burrinho sem falar nada com ninguém. A única recomendação do Senhor era de que, se o dono perguntasse, os discípulos deveriam apenas responder: “O Senhor precisa dele!” E quando já estão desamarrando o burrinho, a explicação simplória foi dada ao dono e o satisfez plenamente. Jesus, então, montou no animal depois de ter sido enfeitado com as vestes dos próprios discípulos. Na entrada de Jerusalém as palmas e os mantos eram estendidos no chão para o Senhor passar com o burrinho, que ia todo alegre...

Também um dia o Senhor usou alguém para nos desamarrar, tirar-nos do antigo dono e nos fazer levá-Lo ao povo que espera ansioso e sedento. Fomos enfeitados com os carismas e o Senhor nos dotou de muitas capacidades para ministrarmos a música divina. Tornamo-nos como o burrinho que vai levando Jesus na música, vão seguindo palmas, mantos, elogios... Mas as palmas e os mantos não são para o burrinho, são para Jesus. Burro do burrinho se acreditar que as palmas são para ele!

Por que o Senhor quis montar no burrinho para entrar em Jerusalém? Era para cumprir o oráculo do profeta que dizia que o Ungido de Deus viria humildemente montado num burrinho (cf. Zc 9,9). Porém, a explicação que o Senhor dá aos Seus discípulos para passarem ao dono do burrinho era só essa: “O Senhor precisa dele”.

O próprio Jesus não se mostrou como Rei orgulhoso na Sua entrada em Jerusalém, pois estava acima dos apupos da multidão. Deve ser esta a nossa atitude ao levarmos Jesus aos homens: humildade. Humildade de quem sabe que só está levando Cristo, que a honra pertence só a Ele e que as palmas são só para Ele. No momento em que estivermos ministrando a música devemos nos lembrar de que, sem Jesus Cristo, o nosso lugar seria na “estrebaria”, no esquecimento. Se você, ministro de música, perguntar por que o Senhor o escolheu para levá-lo por intermédio de sua melodia, a resposta será a mesma que os discípulos deram ao dono do burrinho: “O Senhor precisa dele!” E levar o Senhor por meio da música, sem vaidade, é sua missão!

O erro de Herodes foi sério: permitiu que o povo o adorasse. Por isso teve a pena de morte.
Se você tem um maravilhoso dom de pregar, de cantar, ou tocar, ou animar uma assembleia, lembre-se de que Deus lhe deu esse dom, foi Ele quem o colocou onde está. Cuidado para não se envaidecer!

Se você pretende andar com Deus, cantar e tocar para o Senhor, então há um princípio vitalmente importante e inviolável a manter em sua mente: TEM DE SE LEMBRAR DE DAR GLÓRIA A DEUS.

Caim – A tentação do ciúme
Série formação: "Tentação do músico"

Encontramos a história de Caim no livro do Gênesis, capítulo 4, versículos de 1 a 16. Seu irmão, Abel, ofereceu a Deus o melhor dos seus rebanhos, porém, a Palavra de Deus nos diz que Caim ofereceu “frutos da terra” – não menciona que foram os melhores frutos da terra. Por esse motivo, Deus se agradou mais do ofertório de quem dava a Ele o melhor de si, enquanto que o Senhor não se agradou da oferta de Caim. Nesse trecho da Sagrada Escritura o termo usado para descrever a recepção das ofertas de Caim é que “não olhou para Caim, nem para seus dons” (vers.5) Com isso ele [Caim] ficou extremamente irritado e seu semblante tornou-se abatido.

No momento em que seu semblante mudou, o ciúme entrou em seu coração, e junto com o ciúme, o desejo de morte. A partir daquele momento era como se Abel já estivesse morto dentro do coração de Caim. A consumação do assassinato seria apenas a oportunidade de colocar em prática aquilo que já estava concretizado dentro do seu coração.


Assim acontece quando nos enciumamos em relação ao dom do irmão: assassinamos sutilmente a imagem do outro dentro do nosso coração. Quando alguém está sendo mais usado por Deus do que nós a mesma tentação de Caim bate ao nosso coração: “Por que Deus não olha para mim? Por que não me usa como ele?”. No entanto, nossa atitude teria de ser outra, a de dar graças a Deus, pois o irmão que está sendo instrumento para o Senhor está do nosso lado.

Principalmente o músico é tentado a se deixar levar pela irritação e pelo ciúme diante do dom do outro. Nesse momento o tentador quer nos induzir a um pensamento de desamor em relação ao outro e, ainda por cima, nos leva a pensar que faríamos melhor que o outro se estivéssemos no lugar dele! Vem logo, quando deixamos o ciúme entrar, o desejo de tomar o microfone do outro, a guitarra do irmão, de tomar o lugar daquele conjunto naquela apresentação, de ficar no lugar daquele animador, etc.

Se todos estivermos unidos para executar a música do Senhor, não vai nos importar quem estiver na frente. Se até este momento Deus não olhou para mim e para meus dons é porque não chegou o momento de eu ser usado por Ele, o que não significa que Ele nunca vá me usar. O requisito mais importante para o Senhor olhar para meus dons é que eu dê a Ele o melhor de mim, o melhor de meu trabalho. Então, no momento certo, Ele me colocará na linha de batalha.

O Senhor, vendo o semblante abatido de Caim, preveniu-o de não se deixar levar pelo pecado:
“Se praticares o bem, sem dúvida poderás reabilitar-te. Mas se procederes mal, o pecado estará à tua porta, espreitando-te: mas tu deverás dominá-lo” (Gên 4,7).

Devemos dominar o sentimento de ciúme pedindo ao Senhor que nos dê amor para amar o irmão e nos alegrarmos pelos seus dons.
Somente o amor nos levará a considerar os dons do outro com o profundo desejo de que Deus continue olhando para os nossos dons. 

Giezi – A tentação da impureza de intenção
Série Formação: "Tentação do Músico"

Giezi era um discípulo do profeta Eliseu. Encontramos sua história do capítulo 19 do Primeiro Livro dos Reis ao capítulo 5 do Segundo Livro dos Reis. Porém, nos deteremos no capítulo 5 de II Reis, no qual verificaremos como esse discípulo se deixou levar pela tentação. 

Naamã, o chefe do exército do rei da Síria, era leproso e ficou sabendo dos grandes sinais feitos pelo profeta Eliseu. Sendo assim, dirigiu-se a esse homem de Deus para buscar a cura. Eliseu manda ao chefe do exército que se lave sete vezes no Rio Jordão para se curar. Mesmo contrariado com aquela ordem absurda e não acreditando muito nesse pedido, Naamã lavou-se e foi curado. A alegria foi tanta, que ele voltou ao profeta, oferecendo-lhe vários presentes. Apesar de sua insistência, Eliseu não aceitou as riquezas oferecidas.

Em II Reis 5,20 há um resumo do que se passava dentro do profeta Eliseu:
“Eis que meu amo poupou esse sírio, Naamã, recusando aceitar de sua mão o que ele tinha trazido.
Pela vida de Deus! Vou correr atrás dele, e obterei dele alguma coisa.”

Giezi não possuía o mesmo desapego e as mesmas intenções de seu mestre, Eliseu. A verdadeira intenção desse homem [Giezi] era obter lucros pessoais pelos serviços divinos prestados.

Naamã acreditou na mentira dita por Giezi e lhe deu dois talentos de prata e duas vestes de festa, e este guardou tudo em sua casa apresentando-se em seguida ao profeta. Deus revela a má conduta de Giezi a Eliseu e o castigo do discípulo é que ele contrai a mesma lepra de Naamã. Dessa forma, leproso, ele saiu da presença do profeta Eliseu. A punição pela impureza de intenções de Giezi foi a lepra.


Corremos o mesmo risco desse discípulo infiel [Giezi] quando queremos servir ao Senhor buscando outros interesses. Nossa intenção em servir a Deus não pode ser a de querer obter lucros com o nosso serviço e com o nosso dom.

Quando Jesus despede os apóstolos para a missão de levar o Reino de Deus a outras cidades Ele os adverte primeiro: “Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios. Recebestes de graça, de graça dai” (Mateus 10,8).

A condição para servir ao Reino de Deus é dar de graça aquilo que recebemos de graça. Não pode ser nossa motivação principal nas coisas de Deus cantar ou tocar esperando recompensas pelo dom que Deus nos deu gratuitamente.

No entanto, isso é diferente, quando o grupo ou banda musical possui membros consagrados que vivem exclusivamente do canto evangelizador, pois: “o operário é digno do seu salário” (Mateus 10,10b). Mas mesmo assim, recebendo o necessário para seu sustento, o que deve motivar o grupo não pode ser os lucros materiais da apresentação, ou seja, a venda dos discos, CDs e fitas musicais, mas o desejo de levar Jesus vinte e quatro horas por dia.

Para o grupo musical que não fez consagração total para viver da música divina é melhor que não exija nada, a não ser o que lhe derem espontaneamente pelas suas apresentações, pois este corre o risco de cair na tentação de Naamã, a de colocar outros valores à frente das coisas de Deus, a tentação de servir a Deus esperando as recompensas materiais, a tentação de servir com a busca do proveito próprio e não do crescimento do Reino de Deus.

Nossa verdadeira motivação para servir a Deus deve ser o AMOR – POR AMOR A JESUS, POR AMOR À IGREJA!

Saul – A tentação de agir na carne
Série Formação: "Tentação do Músico"

A história do rei Saul está no primeiro Livro de Samuel, do capítulo 8 ao 31, mas nos deteremos nos capítulos 9 a 15 para verificar as causas da rejeição de Deus a Saul e os motivos da transferência da realeza deste para Davi.

Quando Saul é ungido como rei, o Espírito Santo mudou-lhe o coração (cf. I Sm 10), mas não permaneceu nesta unção, porque não se deixou conduzir por Deus para governar Israel. Em vez disso, preferia agir seguindo os impulsos da carne. Por isso foi caindo no desagrado de Deus.

O primeiro pecado de Saul aconteceu quando ele estava diante de uma batalha contra os filisteus (cf. I Sm 13). Ele sabia que não adiantava guerrear sem primeiro consultar o Senhor. Esperava por Samuel, sacerdote de Deus, para este fazer uma cerimônia e consultar o Senhor. E como o sacerdote [Samuel] demorasse a aparecer, o rei se fez de sacerdote, oferecendo sacrifícios ao Senhor:

“Pensei comigo: Agora eles vão cair sobre mim em Gálgala, sem que eu tenha aplacado o Senhor. Por isso ofereci eu mesmo o holocausto” (I Samuel 13,12).

A resposta de Samuel, que chega após o rei ter errado, é que o seu reino não subsistirá, pois procedeu Saul nesciamente, seguindo os impulsos do coração. Ele não havia recebido unção para ser sacerdote, mas para ser rei. Mas, no limiar da guerra, Saul desobedeceu a Deus, fazendo-se sacerdote, fazendo um trabalho fora de seu chamado. Ele agia voluntariamente, seguindo o que pensava e não conforme o pensamento de Deus.


Também o músico pode cair na mesma tentação de Saul quando se envolve num trabalho para o qual não foi ungido, para o qual não foi chamado. É como se alguém se dispusesse a arrumar sua casa, na maior boa vontade. Só que essa pessoa não entende de arrumação nem sabe onde você coloca os utensílios, por isso, vai guardando tudo no lugar errado. Chega um momento em que você tem de dizer: “Pare! Deixe que eu mesmo arrumo!” Assim fez Saul: não entendia do sacerdócio, mas se fez de sacerdote, causando assim mais males do que bem.

No capítulo 14, de I Samuel, encontramos de novo Saul dando uma ordem imprudente, ou seja, a de não comer nada no meio da batalha. Como o povo foi perdendo suas forças pela fome, a batalha foi se estendendo sem que terminasse. Também o músico quando segue os impulsos da carne dá ordens imprudentes, tolas, perdendo assim toda a autoridade espiritual.

Saul comete um novo pecado ao desobedecer ao mandamento do Senhor de não poupar nada do espólio de guerra, poupando o melhor das ovelhas e dos bois para sacrificar ao Senhor. A intenção de Saul até era boa, mas não partia da vontade de Deus. Era uma boa ideia, mas que não vinha de Deus Pai. O servo do Senhor na música tem de seguir não suas “boas ideias”, mas as inspirações de Deus. É um erro querer fazer algo deduzindo que se está fazendo a vontade de Deus. É como se eu dissesse ao Altíssimo: “Venha atrás de mim, pois sei o caminho! Ou ainda: Abençoe-me, Senhor, pois a minha ideia é maravilhosa!”

É uma grande tentação para o músico agir como Saul, que preferia seguir o próprio pensamento, que só agia na carne, sem obedecer ao Senhor. Devido à desobediência dele, o Senhor chamou Davi para ser rei em seu lugar. Assim acontece com o músico que age na carne no serviço do Senhor: logo será substituído por alguém que contenha a realeza de Deus. O Reino de Deus é servir. Deus Pai substituirá, logo, logo, o músico que age segundo os impulsos da carne por alguém que O sirva como Davi.

Pilatos : a tentação da falta de compromisso
Série Formação: "Tentação do Músico"

A mulher já o havia advertido de que não fizesse nada contra Jesus, pois havia sido atormentada por um sonho que lhe dizia respeito (cf. Mateus 27,19b), porém, Pilatos estava pressionado por dois lados: de uma lado estavam os fariseus e príncipes dos sacerdotes, que queriam que Pilatos, detentor do poder de mandar Jesus à morte, o condenassem; de outro, estava a sua mulher, que não queria a morte de Jesus. Pilatos ainda se sentia constrangido com as palavras de Cristo, que lhe havia dito que realmente era Rei, mas que o Reino d'Ele não era deste mundo. E mais ainda: Jesus lhe havia dito que fora Seu Pai quem havia dado o cargo que ele [Pilatos] exercia.

O Senhor também revelou a Pilatos que Sua missão era dar testemunho da verdade. E este lhe pergunta: “O que é a verdade?” - tendo feito esta pergunta virou as costas a Jesus (cf. João 18,35-38). Ele não queria, na verdade, saber o que era a verdade nem se comprometer com verdade alguma; pois preferia prender-se à “sua verdade”, à sua conveniência. Pilatos queria soltar Jesus (cf. Lucas 23,20-21), mas se sentia pressionado, pois se assim o fizesse ele estaria se comprometendo com o Mestre de Nazaré e, por conseguinte, perderia sua posição no poder.


A posição de Pilatos era de “ficar em cima do muro”; não queria compromisso com Jesus, pois isso lhe traria muitos transtornos e sua vida mudaria da situação confortável em que se encontrava. Então, querendo satisfazer o povo e não a Deus (cf. Marcos 15,15), lavou as mãos e mandou que Jesus Nazareno fosse crucificado.

A falta de compromisso é uma tentação muito forte para o servo de Deus na música, pois é muito cômodo ter o ministério apenas como bico, como passatempo de fim de semana. É muito cômodo dizer: “Eu não tenho nada com isso, pois já fiz o meu trabalho!”

Ministério de música é, acima de tudo, compromisso com Deus, exige consagração e busca da verdade todos os dias da vida
. O músico não pode ficar “em cima do muro”, mas deve se comprometer, dedicar sua vida a esse ministério. É uma tentação muito grande, a mesma em que caiu Pilatos, a de achar que a vida piorará se nos comprometemos com o Senhor. Jesus nos amou tanto que deu a vida por nós. Como Ele não irá nos dar a felicidade de que precisamos? Não adianta ser servo de Deus na música e nos deixarmos levar por uma vida sem oração e sem vínculos com a Igreja, sem compromissos com o Reino do Senhor.

Safira e Ananias - A tentação de servir a Deus pela metade
Série Formação: "Tentação do Músico"

A história do casal Safira e Ananias é descrita nos Atos dos Apóstolos 5,1-11. Naquele tempo os primeiros cristãos vendiam suas propriedades e depositavam aos pés dos apóstolos a quantia da venda, conquistando assim a admiração de todos. Eles procediam desta maneira, pois haviam descoberto o Tesouro Escondido, que é Nosso Senhor Jesus Cristo, pérola preciosa.

O referido casal tramou vender seu campo e reter para si certa quantia do dinheiro. Deus não havia ordenado aos dois que vendessem a propriedade, mas eles estavam tocados pela admiração do povo por aqueles que se dedicavam totalmente ao Cristianismo. Os dois pretendiam ser “cristãos de aparência”, queriam parecer santos, quando, no fundo, estavam apegados ao materialismo. Não possuíam confiança absoluta no Senhor. Talvez tivessem guardado um pouco do dinheiro com medo de o Cristianismo não dar certo; então poderiam recomeçar a vida com o que lhes havia sobrado da venda do local.









Pensando assim, dirigiam-se um após o outro aos Apóstolos, primeiro Ananias, depois Safira. O primeiro que chegou teve seu pecado revelado: haviam mentido não para os Apóstolos, mas para o Espírito Santo. Safira chegou por último com a mesma mentira, encobrindo a verdade, tentando manter as aparências de pessoa muito santa; mas sua mentira, sua vida só de aparências, foi desmascarada por Pedro. Os dois tiveram a mesma sorte: pereceram devido à mentira.

O ministro de Deus na música não pode servir a Deus pela metade. É uma grande tentação querer manter as aparências para servir o Senhor. Não se pode querer viver uma vida carismática aliada a uma vida de pecado ao mesmo tempo; uma vida de materialismo e de mentiras convivendo ao mesmo tempo com o serviço de Deus. Não podemos ter máscaras, temos de ser autênticos, não podemos ter procedimentos fingidos. É o que nos diz São Paulo: “Não desanimamos deste ministério que nos foi conferido por misericórdia. Afastamos de nós todo procedimento fingindo e vergonhoso. Não andamos com astúcia, nem falsificamos a Palavra de Deus” (II Coríntios 4,1-2).

Os filhos de Eli – Servir a Deus em estado de pecado
Série Formação: "Tentação do Músico"

O procedimento indigno dos filhos do sacerdote Eli nos é relatado no primeiro Livro de Samuel, capítulo 2, versículos 1 em diante (leia o capítulo inteiro). Quando o povo ia até o templo para levar suas ofertas ao Senhor e sacrificar animais nas celebrações, os filhos do sacerdote Eli retiravam dos ofertantes aquilo que não lhes pertencia, retiravam o melhor das dádivas reservadas ao Senhor. Se alguns dos fiéis se opusessem, ameaçavam tomar à força.

O comportamento do pequenino Samuel era diferente. Embora ainda criança (vers. 18), servia ao Senhor trajando a veste sacerdotal. Desde pequeno o menino Samuel era consagrado ao Senhor e levava a sério seu trabalho.

A atitude dos filhos de Eli atraía a repulsa do povo, mas chegou aos limites. Um dia apareceu um homem de Deus (vers. 27) e declarou ao velho sacerdote o pecado de omissão deste por não corrigir o comportamento dos filhos: “Fazes mais caso dos teus filhos que de mim, engordando-os com o melhor de todas as ofertas de meu povo de Israel” (vers. 29b).

O homem de Deus declarou então a Eli que seus filhos não ficariam mais à frente das coisas de Deus, mas pereceriam devido ao seu mau comportamento.


Também o músico sofre a tentação de servir a Deus vivendo em estado de contratestemunho. O músico tem de ser consagrado ao Senhor como Samuel. Ser consagrado é ter o ministério como prioridade, como serviço, é separar para o Senhor o melhor de nosso tempo.

Muitas vezes, somos tentados a não querer oferecer o melhor para Deus; no entanto, com nossa atitude de egoísmo e pecado impedimos as pessoas de entregar o coração a Deus. É uma tentação forte a de servir a Deus com procedimento indigno de servos que somos.

O que realmente convence as pessoas é o nosso testemunho de vida: “O homem contemporâneo acredita mais nas testemunhas que nos mestres” (Evangelii Nuntiandi 44).

Se seu pecado o está impedindo de servir a Deus, ou as atitudes de contratestemunho estão escandalizando as pessoas, se alguém está com a vida irregular e mesmo assim continua à frente no ministério de música, é melhor parar, afastar-se temporariamente, procurar a confissão, para então voltar para o seu lugar no ministério. Não há pecado algum que o Sangue de Jesus não possa lavar. Temos na nossa Igreja o sacramento da reconciliação. Quem é sensato não despreza as palavras de São Tiago:“Confessai os vossos pecados uns aos outros e orai uns pelos outros para serdes curados” (Tiago 5,16).

Esse tipo de tentação, o de servir na música com uma vida irregular, é muito perigoso, pois é muito cômodo ter uma aparência de santo, é até fácil; porém, aquilo que é oculto sempre vem a ser revelado. As pessoas quererão verificar se o músico está realmente vivendo o que canta.

O menino dos cinco pães – A Tentação de Reter para Si
Série Formação: "Tentação do Músico"

O melhor exemplo que poderíamos encontrar para ilustrar este tipo de tentação é uma figura quase apagada na Palavra de Deus, um menino que apenas é mencionado como dono de cinco pães e dois peixes, dádivas preciosas para a multiplicação dos pães.
A história deste menino está no Evangelho de São João 6,1-15.

A multidão que seguia Jesus estava faminta. Cristo tem compaixão do povo e sabia muito bem o que ia fazer, mas para experimentar Seus discípulos perguntou-lhes:
'Onde compraremos pão para toda essa gente?' (vers. 5b)

André sempre vai a Jesus, apresenta-lhe algo.Ele, que um dia apresentou Pedro a Jesus, apresenta-lhe agora um menino proprietário de cinco pães e dois peixes.

A passagem não relata quase nada sobre o garoto, mas nos colocamos a imaginar: o que estaria fazendo aquele menino no meio da multidão faminta com aquela quantidade de alimentos? Seria ele alguém que estava lá para vender os alimentos? Será que aquela quantidade de pães e peixes havia sobrado porque o menino ficou entretido com as palavras de Jesus e, assim, esqueceu-se de comer?

Isso tudo agora não tem muita importância, pois o que queremos focalizar é que o menino doou o que possuía para o Senhor e, como resultado de sua doação o milagre aconteceu. No meio daquela multidão, é claro que o menino ficou tentado a não entregar o que possuía, é o que deduzimos, devido a toda uma multidão faminta que o cercava.


O músico é também tentado, como o menino dos cinco pães e dois peixes, ou seja, a não dar ao Senhor o que possui de mais precioso: sua vida. O Senhor, muitas vezes, faz um milagre a partir do que é oferecido a Ele,como nas Bodas de Caná, onde foi apresentada ao Senhor água para ser transformada em vinho. Se retemos nossas ofertas ao Senhor, como haverá multiplicação?

*É uma tentação perigosa a de reter os conhecimentos e técnicas musicais só para si. Há muitos músicos fazendo isto e, por esta causa, temos tido tão poucos músicos cristãos, já que o milagre da multiplicação tem sido impedido de acontecer por falta de servos dispostos a doarem de si mesmos ao Senhor e aos irmãos.*

É semeando que colhemos. Ninguém planta uma quantidade de sementes, em condições normais, para receber o mesmo tanto de sementes que plantou; ao contrário, a terra generosa se incumbe de multiplicar as sementes.

“Convém lembrar: aquele que semeia pouco, pouco ceifará. Aquele que semeia em profusão, em profusão ceifará. Dê cada um conforme o impulso do seu coração, sem tristeza nem constrangimento. Deus ama o que dá com alegria.” (II Cor. 9,6-7)

O músico deve ser como André, que apresenta algo para o Senhor, que não se apresenta a Deus vazio, mas oferece ao Senhor pequenina colaboração para acontecer o milagre da multiplicação.

A tentação de voltar à vida velha

Logo depois que Jesus ressuscitou, Ele apareceu aos Seus discípulos. No capítulo 20, do Evangelho de São João, a Palavra de Deus mostra-nos que em uma de Suas aparições Jesus dá aos apóstolos a autoridade de perdoar pecado. Apesar dessa investidura de autoridade espiritual os apóstolos não saíram imediatamente confessando o povo e manifestando a presença de Cristo ressuscitado, pois isso só aconteceu após o Pentecostes, quando o Espírito Santo ensinou e recordou aos discípulos a sua missão de levar a Boa Nova, de proclamar Jesus vivo.


No capítulo 21 do Evangelho de São João, Pedro comunica aos seus companheiros, apóstolos que como ele mesmo foram testemunhas oculares da ressurreição de Jesus Cristo: “Vou pescar” (vers.3). Neste momento colocamo-nos a indagar: será que Pedro se esqueceu de que já havia trocado de profissão e que não mais era pescador de peixes, mas de gente? Estaria ele voltando à vida velha? Teria esfriado na fé?

Pedro e os discípulos saíram a pescar, mas embora pescassem à noite inteira, não pegaram peixe algum. Assim também acontece conosco. Quando já pertencemos ao Senhor e queremos fazer algum trabalho sem consultá-Lo, não somos bem sucedidos. Não tem como, uma vez que somos ministros de Jesus, sairmos bem em nosso trabalho na música sem primeiro procurar qual é a vontade do Senhor.

Já de manhã, exaustos, os apóstolos vão retornando à praia e, de súbito, deparam com Jesus, porém, não O reconhecem. O Messias manda-os lançar as redes novamente. Eles obedecem e aí, e só então, a pescaria é bem-sucedida. Por esse motivo reconhecem a presença de Jesus, presença responsável pela boa pesca. Enquanto estavam presos a si mesmos, dependendo só de seus esforços e contando apenas com seus conhecimentos, não reconhecem a Jesus Ressuscitado. Nesse momento Pedro descobre que está nu. É a mesma nudez de Adão, após ter pecado no paraíso. É nudez que o afastamento de Deus ocasiona, nudez de dons. Nossa autossuficiência nos despe da ajuda que Deus quer nos dar. O apóstolo cinge-se, lança-se nas águas e vai em direção ao Mestre, enquanto seus amigos retiram os centos e cinquenta e três grandes peixes.

Ao saltarem na praia o Senhor os espera com brasas preparadas, em cima delas um peixe e pão. Quando saímos para a vida velha, assim nos espera de volta o Senhor: com a brasa do Seu amor a arder por nós, brasas prontas para reaquecer nosso coração que esfriou na fé. Os fracassos e os sofrimentos que o mundo nos impingem esfriam nossa fé e só nos reaquecemos perto de Jesus. Ele nos oferece o Pão da Vida para recobrarmos a fé e nos reanimarmos para a missão.

O amor de Cristo Ressuscitado convida Pedro a voltar. É justamente o amor a forma que Deus usa para nos trazer de novo quando caímos na tentação de esfriar na fé e voltar à vida velha. Jesus, por três vezes, pergunta ao apóstolo: "Tu me amas". Somente após a terceira pergunta é que Pedro cai em si e se entristece. Pedro, então, responde ao Mestre: "Tu sabes tudo, tu sabes que eu te amo"(vers.17b). Pedro sabe que Jesus tudo conhece. O Senhor conhece-nos por dentro, sabe que somos fracos. Não precisamos fingir o que não somos, não precisamos dissimular e disfarçar o que trazemos dentro de nós para o Senhor, pois Ele sabe o que há no interior do homem. Cristo dá uma ordem muito séria ao príncipe dos apóstolos: "Apascenta as minhas ovelhas". Essa ordem é também para nós. As ovelhas pertencem ao Senhor e não a nós e Ele quer que cuidemos do rebanho com zelo, com fervor e alegria.

Precisamos nos questionar: "Esfriei na fé? Possuo o mesmo amor do primeiro encontro com Jesus? Estou jejuando como nos primeiros dias quando descobri Deus ou será que arrefeci do meu primeiro amor?"


Todas as vezes em que esfriamos no nosso primeiro amor com Jesus e deixamos as primeiras obras de conversão, caímos na tentação de voltar à vida velha.
A tentação de voltar à vida velha sempre se apresentará diante do músico, outrossim sabemos que podemos recorrer a Jesus, como Pedro o fez, e dizer com ele: "Tu sabes tudo, tu sabes que eu te amo!".

A tentação de agir sem amor

A Tradição da Igreja afirma que Judas Iscariotes era um zelota. Os zelotas eram guerrilheiros israelitas que lutavam contra o domínio romano. Eram nacionalistas ferrenhos e desejavam um Israel forte e livre dos seus opressores. Ele foi um dos escolhidos para andar com Jesus (cf. Mt 10,4). Ele, como os outros apóstolos, foi enviado em missão de ir à frente de Jesus pelas aldeias e povoados anunciando a presença do Reino do Deus (cf. Mt 10,5). Portanto, Judas conhecia Jesus e Seu poder.

Apesar de conhecer o Senhor, ele não agia com amor. Embora andasse com Jesus Nazareno não possuía os mesmos interesses e agia com desonestidade. Verificamos na passagem bíblica o "Jantar em Betânia" (cf. Jo 12,1-11), na ocasião em que Maria derrama um frasco de um perfume caro nos pés do Senhor, que aquilo que passava pelo coração do apóstolo [Judas] era bem diferente de amor: "Mas Judas Iscariotes, um dos seus discípulos, aquele que o havia de trair disse: 'Por que não se vendeu este bálsamo por trezentos denários e não se deu aos pobres?' Dizia isto não porque se interessasse pelos pobres, mas porque era ladrão e, tendo a bolsa, furtava o que nela lançavam" (ver. 4 a 8).


Jesus conhecia Judas, sabia que ele o haveria de trair e, mesmo assim, agiu com amor para com ele. Lavou-lhe os pés (cf. Jo 13), deu-lhe chance de regenerar-se (cf. Jo 13,28-30), até se deixou ser beijado por ele (cf. Mt 26,49-50). Porém, Judas vendeu Jesus, vendeu também sua fé, pelo preço de trinta moedas, o preço de um escravo.

Logo que Cristo é preso, Judas arrepende-se, é tomado de remorsos (cf. Mt 24,1-10), tenta devolver a quantia, tenta voltar atrás no seu gesto traidor, mas tudo já estava consumado, Jesus já iria ser condenado. O apóstolo esperava que o Senhor fosse o libertador de Israel das mãos opressoras dos romanos. Esperava que seu Mestre fosse governar Israel, mas quando o Senhor falou de Sua Morte e Ressurreição, ele decepcionou-se, deixou-se levar pelo dinheiro e renegou sua fé. Judas não confiou no perdão divino. O perdão que Jesus deu a Pedro foi de uma falta semelhante à traição de Judas, só que o primeiro apóstolo [Pedro] buscou a misericórdia de Deus e o segundo [Judas] achou que seu pecado era maior que o amor do Messias. Judas já havia agido tanto sem amor e movido pela cobiça de tal maneira que não mais confiava no amor, não acreditava no amor, não agia no amor. Esse foi o grande erro dele: não agir nem confiar no amor.

O que deve mover o músico a prestar o serviço a Deus deve ser o amor. É necessário todos os dias que ele se questione: "O que está me movendo é realmente o amor? Tenho agido com honestidade para com Deus?"

A tentação em que Judas caiu foi a de não andar no amor. É uma tentação muito grande também para quem ministra a música. Devemos entregar a Deus todas as nossas decepções com as pessoas. Devemos até confessar se estamos decepcionados com as demoras do Altíssimo. Não podemos disfarçar o que há dentro de nós, temos de ser sinceros para com o Senhor.


(Trecho extraído do livro: "Formação espiritual de evangelizadores na música" de Roberto A. Tannus e Neusa A. de O.Tannus).
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